Quem produz moda no Brás conhece bem a engrenagem: boa parte das peças vendidas no atacado passa pelas mãos de costureiras autônomas e de pequenas facções contratadas pelas confecções. É justamente essa relação, muitas vezes informal e combinada por grupos de WhatsApp e redes sociais, que a plataforma catarinense Coostura tenta organizar, e o projeto acaba de ganhar vitrine internacional.
A fundadora, Andreyna Santos e Silva, foi uma das três finalistas mundiais na categoria Tecnologia do Prêmio Mulheres nos Negócios 2026 (Empretec Women in Business Awards), da ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). A cerimônia ocorreu em 26 de outubro, em Doha, no Catar, durante o 9º Fórum Mundial de Investimentos. O troféu da categoria ficou com a nigeriana Biobele Oyibo, da Earlybean, mas o Brasil foi o país com mais finalistas na edição: quatro entre as 12 selecionadas.
Como a plataforma funciona
A Coostura funciona como um ponto de encontro digital entre quem costura e quem precisa terceirizar produção. As costureiras e oficinas criam um perfil profissional gratuito, informando região, especialidades e o maquinário que possuem. As empresas de moda pagam uma assinatura para buscar mão de obra por localização, tipo de peça e equipamento, com chat interno, avaliações de ambos os lados e acompanhamento da produção.

A proposta é levar mais segurança, transparência e rastreabilidade a um mercado majoritariamente informal. Segundo a ONU, em seis meses de operação mais de 200 costureiras de sete estados haviam se cadastrado. Em agosto, reportagem do ND Mais já falava em mais de 800 costureiras e cerca de 100 facções na base, além de uma escola de capacitação on-line, a Coostura Play.
Calote inspirou o negócio
A ideia nasceu de uma experiência familiar. A mãe de Andreyna, costureira, trabalhou por anos sem proteção trabalhista formal, com jornadas que passavam de 14 horas por dia, e chegou a levar um calote de R$ 2 mil de um contratante. Formada em Moda e mestre em Administração pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), onde hoje faz doutorado, ela criou a plataforma em 2023.
Antes da indicação da ONU, a Coostura venceu a Feira de Inovação e Empreendedorismo do Vale Europeu, recebeu o Prêmio Gustav Salinger de Empreendedorismo, teve reconhecimento no Fórum Fashion Revolution e contou com apoio do programa Empretec e de recursos de fomento à inovação em Santa Catarina.
Por que interessa ao lojista e ao confeccionista
Para as confecções que abastecem o atacado, encontrar oficinas confiáveis, com o maquinário certo e capacidade de entrega, é um dos gargalos do dia a dia, principalmente em picos de demanda como Black Friday, Natal e coleções de verão. Ferramentas que registram combinados, prazos e avaliações podem reduzir retrabalho e calotes dos dois lados, e ajudam a dar mais formalidade a uma cadeia em que a costureira autônoma ainda costuma ser o elo mais frágil.
Com informações da FURB, da ONU Brasil/UNCTAD e do ND Mais.




