Mais de um terço dos calçados comprados em grandes plataformas de comércio eletrônico na Europa não passou nos testes de substâncias químicas. A conclusão é de um levantamento da Confederação Europeia do Calçado (CEC), divulgado em Bruxelas nesta semana, que avaliou pares adquiridos na Shein, na Temu e no AliExpress. O estudo repercutiu no Brasil em coluna do Metrópoles nesta quarta-feira (14).
Entre fevereiro e maio de 2026, a entidade fez compras como um consumidor comum em sete países: Alemanha, Espanha, França, Itália, Portugal, Reino Unido e República Tcheca. Os produtos foram enviados a laboratórios credenciados. Dos 76 pares analisados, 27 (35,5%) desrespeitaram pelo menos um limite do REACH, o regulamento europeu que controla substâncias perigosas.
O que foi encontrado
O problema mais frequente foram os ftalatos, aditivos usados para deixar plásticos mais flexíveis: 15 dos 50 pares testados para essas substâncias passaram do limite, e um deles tinha concentração de 37%, cerca de 370 vezes acima do teto de 0,1%. Também houve reprovações por cromo hexavalente (30% das amostras testadas), parafinas cloradas de cadeia curta (21,4%), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (10%), formaldeído (9,3%) e metais pesados (4%), segundo o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), que participou do trabalho.
O resultado foi pior entre os calçados vendidos como equipamento de segurança: oito dos dez modelos falharam em ao menos um ensaio, com problemas de aderência ao piso, resistência à perfuração, proteção da biqueira e colagem entre cabedal e sola. Alguns ainda faziam promessas de proteção sem a marcação CE e sem a documentação exigida.
Por plataforma, a Shein teve não conformidades em 13 dos 27 pares avaliados (48,1%) e a Temu, em 14 de 46 (30,4%). A pequena amostra do AliExpress, de três pares, não registrou reprovação. A CEC usa os números para pedir que plataformas e importadores sejam responsabilizados pelo que vendem, no momento em que a União Europeia endurece as regras para encomendas de fora do bloco.
E no Brasil?
O estudo trata do mercado europeu, mas o assunto conversa com a disputa que lojistas e fabricantes brasileiros enfrentam com as plataformas asiáticas. Dados da Abicalçados divulgados nesta semana mostram que, de janeiro a setembro, o Brasil importou 36,6 milhões de pares de calçados, por US$ 491,25 milhões, altas de 9,1% em volume e de 12,5% em valor. Ao mesmo tempo, as exportações caíram 15,6% em receita, e o saldo comercial do setor encolheu mais de 56%. A entidade aponta as pequenas remessas de plataformas internacionais, enquadradas no regime das compras de até US$ 50, como um dos fatores dessa pressão e pede ao governo medidas de defesa comercial.
Para o lojista do Brás, que concorre diretamente com o preço dessas plataformas, a qualidade e a procedência do produto viram argumento de venda. Mostrar a origem do calçado, a composição e, a partir de 2027, a etiqueta obrigatória do Inmetro pode ajudar a diferenciar a mercadoria na hora da negociação com o cliente.
Esta reportagem foi elaborada com base em informações da Confederação Europeia do Calçado (CEC), do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), do Metrópoles e de dados da Abicalçados publicados pelo portal abc+.