O fim da escala 6x1 já começa a mexer com o planejamento do comércio do Brás. O empresário chinês Alex Ye, fundador do Busca Busca, centro de compras que funciona no Shopping Plaza Polo, na Rua Barão de Ladário, publicou um vídeo nas redes sociais defendendo a jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso e afirmando que lojistas consultados por ele não pretendem repassar a mudança para os preços. A declaração foi registrada pelo Portal Spriomais, na sexta-feira (16), e pelo Diário do Centro do Mundo, no sábado (17).
Conhecido nas redes como “Chefe do Benefício”, Alex argumentou que o descanso maior tende a melhorar o atendimento e, com isso, a fidelizar clientes. Segundo os dois veículos, ele disse que perguntou a comerciantes se os produtos ficariam mais caros e que a resposta foi negativa. O empresário também afirmou que novas lojas que serão inauguradas no Shopping D, no Canindé, vizinho ao Brás, já vão começar a funcionar no modelo 5x2, sem esperar a transição prevista na Constituição, e que uma futura unidade do Busca Busca seguirá o mesmo formato desde a abertura.
Não é a primeira vez que o tema aparece na rede. Em fevereiro, depois de críticas sobre as condições de trabalho que viralizaram no TikTok, Alex anunciou um teste da escala 5x2 na loja Mundo Elétrica, dentro do próprio centro de compras do Brás, com a promessa de ampliar o modelo para outras operações, como noticiou na época o jornal O Vale.
O que diz a nova regra e quando ela vale
O Congresso Nacional promulgou na sexta-feira (16) a Emenda Constitucional 141, originada da PEC 221/2019, aprovada pelo Senado na quarta-feira (14) por 75 votos a 1. De acordo com a Agência Senado, 60 dias depois da publicação da emenda, o que cai em meados de dezembro, os trabalhadores passam a ter direito a dois dias de descanso semanal remunerado, com jornada máxima de 42 horas. Um ano depois, o limite cai para 40 horas semanais, sem redução de salário. Uma das folgas deve ocorrer preferencialmente aos domingos.
Durante a transição, acordos e convenções coletivas podem ampliar a jornada diária para acomodar as 42 horas, desde que mantidos os dois dias de repouso, e a compensação de folgas é permitida, com média de dois dias por semana no mês e pelo menos um descanso a cada sete dias. Cláusulas coletivas incompatíveis perdem validade depois dos 60 dias. A emenda prevê ainda que uma futura lei complementar poderá criar medidas de adaptação para MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte, condicionadas à manutenção dos empregos.
Por que o prazo preocupa o atacado
Para quem vende no Brás, o calendário pesa: a primeira etapa começa justamente na reta final das vendas de Natal, quando shoppings e galerias do bairro costumam ampliar horários e abrir aos domingos. Segundo o Valor Econômico, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) orientou as empresas a mapear as escalas atuais, calcular a necessidade de contratar ou remanejar funcionários e negociar aditivos com os sindicatos antes do fim do prazo, com atenção especial ao revezamento de domingos e feriados. A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) lembrou que cerca de 60% dos lojistas de shoppings têm até seis funcionários, estrutura que deixa pouca margem para absorver custos.
Do lado da indústria, a avaliação é menos otimista do que a do dono do Busca Busca. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimou, em nota citada pela CNN Brasil, que roupas e calçados podem ficar até 6,6% mais caros com a mudança, e a Abit, que representa o setor têxtil e de confecção, defende debate técnico, prazos adequados de transição e espaço para a negociação coletiva. Na prática, o efeito sobre os preços nas lojas do Brás vai depender de como cada comerciante reorganizar as equipes nos próximos dois meses.
Esta reportagem foi elaborada com base em informações publicadas pelo Portal Spriomais (16/10/2026), pelo Diário do Centro do Mundo (17/10/2026), pela Agência Senado, pelo Valor Econômico, pela CNN Brasil e pelo jornal O Vale (fevereiro de 2026).